"Por Giulio Meazzini
Por que você está sempre ligada no Facebook?" Pergunto. "Para ver se alguém me procurou e o que os meus amigos fazem neste momento". A adolescente me responde e, depois, me olha como se eu fosse um extra-terrestre por não saber de coisas tão óbvias.Com efeito, quem não passa horas diante do computador tem dificuldade de entender esse mundo estranho: um mundo em atividade 24 horas por dia, superficial e interativo ao mesmo tempo; um mundo no qual renuncia-se à própria privacidade colocando em público nome, data de nascimento, fotos, ideias, gostos, sonhos. E onde se procura passar uma imagem de si melhor do que a da vida real.
Funciona como se a pessoa estivesse numa praça, grande quanto o mundo, exposta o dia todo numa vitrine, visível para quem passa. Aliás, não todos: normalmente se tem a possibilidade de restringir o acesso aos "amigos". Aí está a palavra mágica: "amigos". Quanto mais você os tem, melhor é. Mas - atenção! - amigo pode ser qualquer pessoa, também alguém que você conhece pouco ou nada.
A palavra de ordem nesse mundo é "abertura" para a troca de novas informações, novos conhecimentos e novas experiências. O problema é que, embora poucos saibam disso, os dados deixados ali permanecem, nunca serão cancelados. Nesse mundo é difícil mudar de vida e esquecer os erros do passado.
Mas, apesar disso, os jovens navegam horas e horas nesse mundo virtual com entusiasmo e naturalidade. Nos Estados Unidos, 85% dos usuários do Facebook são estudantes e universitários. Mas existem também milhares de outros grupos.
Muitos já descobriram que o mundo virtual não é capaz de cumprir a sua promessa de relações de amizade verdadeiras e sólidas. Para essas pessoas os grupos de relacionamentos da internet baseiam-se numa intimidade artificial e em laços de amizade superficiais que só mascaram o vazio da existência. Um mundo falso, infantil, no qual nunca se amadurece. Os entusiastas, por sua vez, acham que, nele, as pessoas são mais humanas e investem mais nas relações com as demais.
Provavelmente os dois lados têm razão. As novas modalidades de socialização virtual não substituem as antigas, mas colocam-se ao lado delas. Nesse sentido, se uma pessoa já possui um equilíbrio humano, psicológico e espiritual, e uma vida social e profissional rica e equilibrada, pode desfrutar desses instrumentos para amplificar as próprias características, individuais e relacionais.
Se, ao invés as pessoas não têm ainda uma personalidade formada ou são imaturas emocionalmente e psicologicamente, correm o risco de consumir as próprias energias relacionais no âmbito virtual distanciando-se e desacostumando-se com as pessoas reais. De fato, já é comum escutar adolescentes dizerem que têm "muitos amigos no mundo virtual e nenhum no mundo real".
E não poderia ser diferente. Se as crianças e os adolescentes passam as horas mais produtivas do seu dia navegando no mundo virtual em vez de estarem no mundo real, certamente o cérebro se acostumará a ver o mundo virtual como se fosse o mundo real.
A consequência disso pode ser a sensação de se sentirem deslocados no mundo real e nas relações com pessoas de carne e osso, visto que as verdadeiras relações interpessoais requerem o contato direto para o qual eles não estão acostumados. E isso é grave."
(Publicado na revista Cidade Nova)
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