domingo, 29 de maio de 2011

III - A arte de recomeçar!

Mas então, Deus em sua misericórdia deu a Pedro o dom, a bela oportunidade de recomeçar! Jesus apareceu duas vezes aos apóstolos reunidos (Jo 20,19-31) e na terceira aparição, os encontrou pescando no capítulo 21 de João, ou melhor, pescando no "mar de Tiberíades" (Jo 21,1). Estavam tentando recomeçar...mas ainda sem o Cristo... Não conseguiam pescar nada até que apareceu um Homem que lhes mostrou que é Sua presença e seus ensinamentos que fazem com que as pescarias fracassadas se tornem fartas, que abre os olhos para perceber que muitos "sucessos" nascem dos "fracassos", que um fracasso ou uma decepção de algo vivido nos ensina de tal forma que nosso recomeçar nos leve ao acerto! Quando Pedro percebeu que era o Senhor e que aquela era a oportunidade que Deus lhe deu, agarrou-a com todas as forças do coração...o mesmo coração que há um tempo atrás "sangrou de dor". Ele não teve medo de enfrentar a situação de dor que viveu de frente, e como bom impulsivo que era, pulou na água porque viu que de barco iria demorar mais (Jo 21,7)... e foi ao encontro do Mestre! Depois de comerem os peixes, Jesus iniciou um dos diálogos mais bonitos da Sagrada Escritura (versículos de 15 a 19), quando por três vezes perguntou a Pedro se ele O amava, transformando toda a desconfiança, o medo e o desânimo que estavam em interior em confiança, em coragem e em ânimo... Pedro, ao encontrar-se com o Cristo ressuscitado estava pronto para recomeçar! Retomar sua missão! E veremos que nos Atos dos Apóstolos ele o fez, liderando a Igreja do Senhor no cumprimento da ordem de proclamar a Boa Nova!

Sempre é tempo oportuno de encontrar o Ressuscitado, mas de maneira especial hoje é tempo para que você encontre o Ressuscitado, é tempo de recomeçar! E Ele te aguarda ansioso para ter um encontro parecido com o que teve com Pedro, para te olhar nos olhos e com amor te dizer: "Não importa o que você viveu, se você errou ou se erraram com você. Importa que você tem o direito de recomeçar e buscar a sua felicidade. Recomece comigo...  não importa qual seja a situação... eu irei com você! E tenha certeza que com a minha ajuda... seu recomeço será tão farto quanto o de Pedro!"

Peço a Deus para que o nosso recomeçar, hoje, agora, com o Cristo... seja cheio de cura e de libertação como o de Pedro, que seja uma experiência profunda de amor... amor de Deus. Que ao olhar nos olhos do Ressuscitado encontremos na profundidade daquele "encontro" a certeza e o ânimo necessários para recomeçar, enfrentar tudo de novo, mas... de maneira diferente! Que Jesus nos dê a graça de não desistirmos nunca e a força para recomeçar sempre com Ele! Se recomeçar é uma arte, que sejamos artistas de Jesus! Assim seja!

II - A arte de recomeçar!

Pedro viveu um grande fracasso, diria um triste fracasso em sua vida. Homem impulsivo e cheio de vida, vivia dando "foras" com Jesus por isso... se você ler os Evangelhos verá quantas vezes Jesus lhe chamou a atenção, mas também quantas vezes ele acertou ao tentar, principalmente a partir dos Atos dos Apóstolos quando busca a seguir a inspiração do Espírito Santo. Certo dia Pedro cheio de confiança falou a Jesus: “Senhor, eu estou pronto para ir contigo até mesmo à prisão e à morte!” Este diálogo está em Lucas capítulo 22 no versículo 33. Pois bem, Pedro falou e Jesus respondeu que ele iria negá-lo. Pedro nem esperou terminar o capítulo 22 de Lucas para cumprir as palavras de Jesus! Já tinha negado por duas vezes, então um homem o apontou como Galileu e um possível seguidor de Jesus, o Galileu,e Pedro o negou pela terceira vez. Vejamos a cena:

“Ora, uma criada viu Pedro sentado perto do fogo; encarou-o bem e disse: “Este aqui também estava com ele!” Mas ele negou: “Mulher, eu nem o conheço!” Pouco depois, um outro viu Pedro e disse: “Tu também és um deles.” Mas Pedro respondeu: “Não, homem, eu não”. Passou mais ou menos uma hora, e um outro insistia: “Certamente, este aqui também estava com ele, pois é galileu!” Mas Pedro respondeu: "Homem, não sei de que estás falando!” E, enquanto ainda falava, o galo cantou. Então o Senhor se voltou e olhou para Pedro. E Pedro lembrou-se da palavra que o Senhor lhe tinha dito: “Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás”. Então Pedro saiu do pátio e pôs-se a chorar amargamente (Lc 22,56-62).

Fico imaginando a dor de Pedro naquele momento. Tudo o que vivera com o Mestre, com seu Amigo, toda a história,  tudo o que ele investiu naquilo que acreditava tinha sido "jogado fora" ao negar Jesus... Ele "chorou amargamente"... o amargor daquela situação, o gosto horrível do fracasso explodia em seu interior, seu coração parecia que iria sair pela boca, a dor era insuportável, Pedro gritava até mesmo como uma forma de se aliviar daquela dor... e o gosto amargo daquele momento de tristeza, de decepção, de fracasso insistia em permanecer... os minutos pareciam horas, as horas pareciam dias, a dor tão grande que a sensação era de que seu coração não aguentaria por muito tempo. Em sua mente se lembrava dos momentos bons que passou com Jesus e, principalmente, do olhar de Jesus expresso no versiculo 61. Parecia o fim...

I - A arte de recomeçar!


Gosto de pensar que a vida é uma bela obra de arte e que nós somos co-artistas dela junto com Deus! Isto porque para mim a arte é esforço, é dedicação, é garra, é entrega, é aprendizado, é treino, é repetição não-repetida (aos olhos de muitos uma obra de arte parecem ser parecidas, mas mesmo que a idéia fosse repeti-las jamais seria assim, pois em cada uma a combinação do esforço, dos sentimentos e emoções ali colocados, da entrega do artista, do momento em que vive são únicos), é manifestação da vida do artista, e acima de tudo, a arte é dom de Deus!
Em nossa vida vivemos e viveremos diversos momentos difíceis em que nos veremos diante da tristeza, da decepção, do fracasso, de dificuldades que parecem nos esmagar... por vezes sentiremos que o momento bom que vivemos acabou ali, ou que está prestes a acabar, seja no trabalho, num relacionamento de amizade ou namoro, sei lá... quem não viveu isso na vida? E essa sensação será sentida por diversas vezes na vida. Se você parar e pensar se lembrará de inúmeras situações assim em sua história. Sabe aquelas situações em que você sentiu que fez errado? Aquela sensação de fracasso? Que depois é seguida de desânimo, da vontade de não tentar mais fazer aquilo de novo...?  Pois é, viveremos isso muitas vezes! Te animei??? rsrs
A boa notícia para nós é que existe um dom especial que Deus nos dá que se chama a "arte de recomeçar". É arte pode requer aqueles atributos que apontei acima como a garra, o esforço, a dedicação, a entrega, aquela sensação de repetição mas que não é repetida por estarmos vivendo de maneira diferente, e principalmente porque recomeçar é um presente de Deus. Podemos viver esse recomeço em dois tipos de situações: se estamos vivendo ainda aquela experiência , podemos nos posicionar de maneira diferente diante dela, fazer o esforço de nos afastarmos dela e de tentar olhar com outros olhos a fim de perceber ângulos que ainda não foram vistos, possibilidades, novas formas de encarar aquilo... ; a segunda situação de recomeçar é quando o que vivemos já acabou, por exemplo, o projeto que você tinha em seu trabalho acabou e não deu certo, um namoro ou amizade que terminou, um propósito que você fez e que acabou não conseguindo cumprir... 
São em situações como estas que Deus que nos dá o dom de recomeçar, e devemos pedir que Ele nos ajude a viver essa arte! Recomeçar é a arte de transformar a superação em desafio, a tristeza da decepção e do fracasso em motivação para alcançar o que parece inalcançável (porque parece muitas vezes a nós que o que não conseguimos na tentativa anterior não o conseguiremos nunca)! Importante é perceber que recomeçar é começar de novo, mas não da mesma maneira e nas mesmas condições de antes. Quando recomeço, não sou mais o mesmo de antes, vivi e aprendi muitas coisas novas, mesmo no fracasso! Recomeçar é a arte de começar sabendo o que não se deve fazer! Podemos até ter que recomeçar uma mesma situação diversas vezes, mas sempre será diferente! Por isso mesmo, é preciso que se viva as situações difíceis com sabedoria, e a sabedoria está em mesmo no sofrimento aprender o máximo com aquela situação, procurar se conhecer vivendo aquilo, olhar para todos os lados e direções e tirar o "maior proveito" daquilo!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A generosidade como caminho para a felicidade

“Jesus estava sentado em frente do cofre das ofertas e observava como a multidão punha dinheiro no cofre. Muitos ricos depositavam muito. Chegou então uma pobre viúva e deu duas moedinhas. Jesus chamou os discípulos e disse: “Em verdade vos digo: esta viúva pobre deu mais do que todos os outros que depositaram no cofre.        Pois todos eles deram do que tinham de sobra, ao passo que ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha para viver” (Mc 12, 41-44).

  
Falar sobre generosidade é falar sobre a atitude dessa viúva e o comentário de Jesus sobre ela. Vamos entender um pouco mais a sua situação. Na sociedade judaica da época, os homens traziam o sustento para a casa enquanto as mulheres cuidavam da casa e da educação dos filhos. Seria anormal encontrar uma mulher trabalhando fora. A grande dificuldade das viúvas era justamente perder o homem que levava esse sustento. Quando ainda tinham filhos, poderiam ainda ser sustentadas, ou em último caso, por pessoas caridosas que se compadecessem dela.
O fato da  viúva não ter ninguém, representava praticamente sua condenação à pena de morte, já que dificilmente conseguiria se virar. É importante esquecer um pouco a sociedade de hoje para entender melhor o peso da viuvez solitária daquela época.
Essa viúva desamparada ainda tinha duas moedas, tudo o que tinha para sustentar sua vida estava ali. Essas moedas representavam a sua própria vida entregue à Providência de Deus, em quem ela confiava. Foi uma atitude de extrema fé, confiança e coragem! Ela definitivamente entregou toda a sua vida naquela oferta, ela se ofertou.
O comentário de Jesus resume a oferta dos ricos e mesmo, talvez de muitos da multidão e o da viúva pobre. Normalmente as pessoas dão apenas aquilo que não fará falta, a viúva deu justamente o que lhe fará falta, e muita! E aqui se encontra o segredo da generosidade. É o dar a mais, o ir além do que é fácil dar!
E a nós é pedida essa generosidade em todos os aspectos. Não somente o financeiro. O serviço a Deus nos pede a generosidade. Não somente o que lhe convém, mas o algo a mais! O dar mais de si, a oferta generosa de sua vida Àquele que no-la deu! Vou mais além, a felicidade inclui viver com generosidade. Não estou dizendo que você tem que dar tudo o que tem o tempo todo, mas são coisas pequenas, ser generoso nos detalhes. Querem ver só uma coisa bem simples: uma pessoa vem conversar com a gente, talvez até desabafar, e nós ficamos preocupados com a hora, olhamos para os lados, prestamos a atenção em outras coisas, ficamos ansiosos para acabar logo aquela conversa... ao invés de darmos apenas o básico, porque não nos damos por inteiro naquele momento? Olhando para a pessoa, colocando toda a sua atenção nela, se compadecendo com ela, se dispondo a estar inteiros ali e somente ali, sem pensar no depois e em outro lugar. Tenho certeza que Jesus tinha essa generosidade, acredito que quando ele olhava uma pessoa, quando escutava alguém, quando pregava, ou orava pela cura, se dava por inteiro naquilo fazia, de certa forma, ofertava toda a sua vida ali... em sua generosidade Jesus amava por inteiro!
O legal é que quando fazemos isto, nos sentimos completos e realizados. Faça essa experiência! A correria do mundo capitalista nos faz pensar em muitas cosias ao mesmo tempo, vivermos em estado de ansiedade, sem conseguir viver uma coisa de cada vez, sem viver com intensidade, sem viver bem e com generosidade. Vamos perdendo até mesmo o prazer me fazer as coisas, até em comer, já que temos que engolir nossa comida (quando não é um fast-food pra ser mais rápido)... Chega uma hora que passamos a fazer as coisas "meia-bocas" já que não temos tempo pra nos dedicarmos aquilo. Até mesmo nossos relacionamentos familiares, com os amigos e com tantas outras pessoas vão perdendo a qualidade. Nós precisamos ser generosos, o mundo precisa da generosidade de cada um para ser um lugar melhor! Acredito que cada um de nós pode dar um pouquinho mais num esforço diário de aumentar nossa generosidade.
Que Nosso Senhor nos ajude a sermos mais generosos porque assim construiremos a civilização do amor! Amém!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

V - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

"Todavia, as causas da sua comoção hã-de ser procuradas em algo mais profundo. O pai sabe que o que se salvou foi um bem fundamental: o bem da vida de seu filho. Embora tenha esbanjado a herança, a verdade é que a sua vida está salva. Mais ainda, esta, de algum modo, foi reencontrada. É o sentido das palavras dirigidas pelo próprio pai ao filho mais velho: «Era preciso que fizéssemos festa e nos alegrássemos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado». No mesmo capítulo XV do Evangelho de S. Lucas lemos as parábolas da ovelha desgarrada e reencontrada e a seguir a da dracma perdida e de novo achada. Em cada uma destas parábolas é posta em evidência a mesma alegria , que transparece no caso do filho pródigo . A fidelidade do pai a si próprio está inteiramente centralizada na vida do filho perdido, na sua dignidade. Assim, sobretudo, se explica a imensa alegria que manifesta quando o filho volta para casa.
 Pode-se dizer, portanto, que o amor para com o filho, o amor que brota da própria essência da paternidade, como que obriga o pai, se assim nos podemos exprimir, a desvelar-se pela dignidade do filho. Esta solicitude constitui a medida do seu amor; amor, do qual escreverá S. Paulo: «A caridade é paciente, é benigna..., não busca o próprio interesse, não se irrita, não guarda ressentimento pelo mal sofrido... rejubila com a verdade ..., tudo espera, tudo suporta» e «não acaba nunca».
 A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a característica interior do amor, que no Novo Testamento é chamado «agape». Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objecto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e «revalorizado». O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido «reencontrado» e ,por ter «voltado à vida». Esta alegria indica um bem que não foi destruído: o filho, embora pródigo, não deixa de ser realmente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho pródigo, o regresso à verdade sobre si próprio.
 O que, na parábola de Cristo, se verificou na relação do pai para com o filho, não se pode avaliar «de fora». As nossas opiniões acerca da misericórdia são de maneira geral o resultado de um juízo meramente externo. Acontece até por vezes que seguindo tal critério, percebemos na misericórdia sobretudo uma relação de desigualdade entre aquele que a exercita e aquele que a recebe. Por consequência, somos levados a deduzir que a misericórdia degrada aquele que a recebe e ofende a dignidade do homem.
 A parábola do filho pródigo persuade-nos que a realidade é diferente: a relação de misericórdia baseia-se na experiência daquele bem que é o homem, na experiência comum da dignidade que lhe é própria. Esta experiência comum faz com que o filho pródigo comece a ver-se a si próprio e às suas acções com toda a verdade (e esta visão da verdade é autêntica humildade). Por outro lado para o pai, precisamente por isso, torna-se o seu único bem. Graças a uma misteriosa comunicação da verdade e do amor, o pai vê com tal clareza o bem operado, que parece esquecer todo o mal que o filho tinha cometido.
A parábola do filho pródigo exprime, de maneira simples mas profunda, a realidade da conversão, que é a mais concreta expressão da obra do amor e da presença da misericórdia no mundo humano. O verdadeiro significado da misericórdia não consiste apenas no olhar, por mais penetrante e mais cheio de compaixão que seja, com que se encara o mal moral, físico ou material. A misericórdia manifesta-se com a sua fisionomia característica quando reavalia, promove e sabe tirar o bem de todas as formas de mal existentes no mundo e no homem. Entendida desta maneira, constitui o conteúdo fundamental da mensagem messiânica de Cristo e a força constitutiva da sua missão. Desta mesma maneira entendiam e praticavam a misericórdia os discípulos e seguidores de Cristo. A misericórdia nunca cessou de se manifestar nos seus corações e nas suas obras, como prova particularmente criadora do amor, que não se deixa «vencer pelo mal», mas vence «o mal com o bem». É preciso que o rosto genuíno da misericórdia seja sempre descoberto de maneira nova. Não obstante vários preconceitos, a misericórdia apresenta-se como particularmente necessária nos nossos tempos."


Não sei o que se passou em você após fazer essa leitura, mas após eu ler essa encíclica a alguns anos atrás fique impressionado pela profundidade do texto e, ao mesmo tempo, pela visão limitada que eu tinha de misericórdia!

IV - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

"É então que toma a decisão: «Levantar-me-ei, irei ter com o meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus jornaleiros». Tais palavras permitem descobrir mais profundamente o problema essencial. Através da complexa situação material de penúria a que o filho pródigo chegou, por causa da sua leviandade, por causa do pecado, amadureceu nele o sentido da dignidade perdida. Quando tomou a decisão de voltar para a casa paterna e de pedir ao pai para ser recebido, não já gozando dos direitos de filho, mas na condição de assalariado, o jovem parece à primeira vista agir por motivo da fome e da miséria em que caiu. Subjacente a esse motivo, porém, está a consciência de perda mais profunda: ser um assalariado na casa do próprio pai é com certeza grande humilhação e vergonha. Apesar disso, o filho pródigo está disposto a arrostar com tal humilhação e vergonha. Caiu na conta de que já não tem mais direito algum, senão o de ser um empregado na casa do pai. Esta reflexão, brota em primeiro lugar da plena consciência da perda que mereceu e do que, doutro modo, poderia vir a possuir. Este raciocínio, precisamente, demonstra que, no âmago da consciência do filho pródigo, se manifesta o sentido da dignidade perdida, daquela dignidade que brota da relação do filho com o pai. Com essa decisão empreendeu o caminho de regresso.
 Na parábola do filho pródigo não é usado, nem uma vez sequer, o termo «justiça», assim como também não é usado no texto original, o termo «misericórdia». Contudo, a relação da justiça com o amor que se manifesta como misericórdia aparece profundamente vincada no conteúdo desta parábola evangélica. Torna-se claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exacta da justiça: norma precisa mas, por vezes, demasiado rigorosa.
 O filho pródigo, depois de ter gasto os bens recebidos do pai, ao regressar merece apenas ganhar para viver, trabalhando na casa paterna como empregado e, eventualmente, ir amealhando, pouco a pouco, certa quantidade de bens materiais, mas sem dúvida nunca em quantidade igual aos que tinha esbanjado. Tal seria a exigência da ordem da justiça, até porque aquele filho, com o seu comportamento, não tinha somente dissipado a parte de herança que lhe competia, mas tinha também magoado profundamente e ofendido o pai. Na verdade o seu comportamento, que a seu juízo o tinha privado da dignidade de filho não podia deixar indiferente o pai; devia fazê-lo sofrer e fazer com que se sentisse, de algum modo, envolvido nesse procedimento. Tratava-se com efeito do seu próprio filho, e esta relação não podia ser alienada nem destruída, fosse qual fosse o seu comportamento. O filho pródigo tem consciência disso, e é precisamente essa consciência que lhe mostra claramente a dignidade perdida e o leva a avaliar correctamente o lugar que ainda lhe poderia tocar na casa do pai.

 Consideração pela dignidade humana

6. A imagem que acabei de descrever do estado de espírito do filho pródigo permite-nos compreender com exactidão em que consiste a misericórdia divina. Não há dúvida de que naquela simples mas penetrante comparação, a figura do pai revela-nos Deus como Pai.
 A atitude do pai da parábola, todo o seu modo de agir manifestação da disposição interior, permite-nos encontrar cada um dos fios que entretecem a visão da misericórdia no Antigo Testamento, mas numa síntese totalmente nova, cheia de simplicidade e profundidade. O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade, fiel ao amor que desde sempre tinha dedicado ao seu filho. Tal fidelidade manifesta-se na parábola não apenas na prontidão em recebê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas sobretudo na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa. Esta atitude provoca até a inveja do irmão mais velho, que nunca se tinha afastado do pai, nem abandonado a casa paterna.
 A fidelidade a si próprio por parte do pai — traço característico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento «hesed» — exprime-se de modo particularmente denso de afecto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, «movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e beijou-o». Procede deste modo levado certamente por profundo afecto; e assim se explica também a sua generosidade para com o filho, generosidade que causará tanta indignação no irmão mais velho."

III - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

"O mistério da criação está em conexão com o mistério da eleição, que de modo especial plasmou a história do povo cujo pai espiritual é Abraão, como mérito da sua fé. Por meio deste povo que caminha através da história, tanto da Antiga como da Nova Aliança, aquele mistério de eleição refere-se a todos e a cada um dos homens e a toda a grande família humana. «Amo-te com amor eterno, por isso ainda te conservo os meus favores». «Ainda que os montes sejam abalados ... o meu amor jamais se apartará de ti, e a minha aliança de paz não será alterada». Esta verdade, anunciada outrora a Israel, encerra em si a perspectiva de toda a história do homem, perspectiva que é simultaneamente temporal e escatológica. Cristo revela o Pai na mesma perspectiva, na perspectiva e no estado dos espíritos já preparados, como o demonstram numerosas páginas do Antigo Testamento. Como remate desta revelação, na véspera da sua morte, diz ao Apóstolo Filipe aquelas memoráveis palavras: «Há tanto tempo que estou convosco e não me conheces?... Quem me vê, vê o Pai».

IV. A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

 Analogia

5. No limiar do Novo Testamento repercute-se no Evangelho de S. Lucas singular correspondência entre duas vozes que proclamam a misericórdia divina, nas quais ecoa intensamente toda a tradição do Antigo Testamento. Nelas encontram expressão os conteúdos semânticos, ligados à terminologia diferenciada dos Livros Antigos. A primeira destas vozes é a de Maria que, entrando em casa de Zacarias, engrandece o Senhor louvando-O com toda a alma «pela sua misericórdia», da qual se tornam participantes, «de geração em geração», os homens que vivem no temor de Deus. Pouco depois, comemorando a eleição de Israel, proclama a misericórdia, da qual «se recorda» desde sempre Aquele que a escolheu.
 A outra voz é a de Zacarias que, na mesma casa, por ocasião do nascimento de João Baptista, seu filho, bendizendo o Deus de Israel, glorifica a misericórdia que Ele quis «usar... para com os nossos pais e lembrar-se da sua santa aliança».
 No ensino do próprio Cristo esta imagem, herdada do Antigo Testamento, torna-se mais simples e, ao mesmo tempo, mais profunda. É o que se manifesta com especial evidência na parábola do filho pródigo, na qual a essência da misericórdia divina — embora no texto original não seja usada a palavra «misericórdia» — aparece de modo particularmente límpido. Contribui para isso, não tanto a terminologia, como nos Livros do Antigo Testamento, mas a analogia, que permite compreender com maior profundidade o próprio mistério de misericórdia, como drama profundo que se desenrola entre o amor do pai e a prodigalidade e o pecado do filho.
 Este filho, que recebe do pai a parte da herança que lhe toca e deixa a casa paterna para esbanjar essa herança numa terra longínqua «vivendo dissolutamente», em certo sentido é o homem de todos os tempos, a começar por aquele que foi o primeiro a perder a herança da graça e da justiça original. Neste ponto a analogia é muito vasta. Indirectamente a parábola estende-se a todas as rupturas da aliança de amor: a toda a perda da graça, e todo o pecado.
 Ao contrário do que acontecia na tradição profética, esta analogia, embora se possa estender também a todo o povo de Israel, não o visa em primeiro lugar.
 Aquele filho, «depois de ter esbanjado tudo..., começou a passar privações», tanto mais que sobreveio grande carestia «naquela terra» para onde ele tinha ido depois de abandonar a casa paterna. Em tal situação, «bem desejava matar a fome» com qualquer coisa, até mesmo «com as alfarrobas que os porcos comiam», animais que ele guardava, ao serviço de «um dos habitantes daquela terra». Mas até isso lhe era recusado. A analogia desloca-se claramente para o interior do homem. A herança que o jovem tinha recebido do pai era constituída por certa quantidade de bens materiais. Mas, mais importante do que esses bens era a sua dignidade de filho na casa paterna. A situação em que veio a encontrar-se quando se viu sem os bens materiais que dissipara, é natural que o tivesse também feito cair na conta da perda dessa dignidade. Quando pediu ao pai que lhe desse a parte de herança que lhe tocava, para se ausentar para longe, não reflectiu por certo nisso. Parece que nem mesmo agora está bem consciente dessa realidade, quando diz para si próprio: «Quantos jornaleiros na casa de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome!». Avalia-se a si mesmo pela medida dos bens que tinha perdido e que já «não possui», enquanto os criados na casa de seu pai «continuam a possuí-los». Estas palavras exprimem principalmente a sua atitude perante os bens materiais. No entanto, por detrás delas esconde-se também o drama da dignidade perdida, a consciência da condição de filho malbaratada."

II - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

"O Senhor revelou a sua misericórdia tanto nas obras como nas palavras, desde os primórdios do povo que escolheu para si. No decurso da sua história, este povo, quer em momentos de desgraça, quer ao tomar consciência do próprio pecado, entregou-se continuamente com confiança ao Deus das misericórdias. Na misericórdia do Senhor para com os seus manifestam-se todos os matizes do amor: Ele é para eles Pai, dado que Israel é seu filho primogénito; Ele é também o esposo daquela a quem o Profeta anuncia um nome novo: «bem-amada» (ruhama), porque usará de misericórdia para com ela.
 Mesmo quando o Senhor, exasperado pela infidelidade do seu povo, decide acabar com ele, são ainda a compaixão e o amor generoso para com os seus que O levam a suster a sua indignação. E então, torna-se fácil compreender a razão pela qual os Salmistas, ao quererem cantar ao Senhor os mais sublimes louvores, entoarão hinos ao Deus do amor, da compaixão, da misericórdia e da fidelidade.
 De tudo isto se deduz que a misericórdia faz parte não somente da noção de Deus, mas caracteriza também a vida de todo o povo de Israel e de cada um dos seus filhos e filhas: é a essência da intimidade com o seu Senhor, a essência do seu diálogo com Ele. Precisamente sob este aspecto, a misericórdia é apresentada em cada um dos Livros do Antigo Testamento com grande riqueza de expressões. Seria difícil, talvez, procurar nestes livros resposta meramente teórica à pergunta: o que é a misericórdia em si mesma. Contudo, a própria terminologia que neles é usada pode dizer-nos muitíssimo a tal respeito.
 O Antigo Testamento proclama a misericórdia do Senhor mediante numerosos termos com significados afins. Estes termos são diferenciados no seu conteúdo particular, mas tendem a convergir, se assim se pode dizer, de vários pontos de vista para um único conteúdo fundamental, a fim de exprimir a riqueza transcendental da misericórdia e, ao mesmo tempo, para aproximá-la do homem sob aspectos diversos. O Antigo Testamento encoraja os homens desventurados, sobretudo os que estão oprimidos pelo pecado — como também todo o povo de Israel, que tinha aderido à Aliança com Deus — a fazerem apelo à misericórdia e permite-lhes contar com ela. Recorda-a nos tempos de queda e de desalento. Em seguida, dá graças e glória a Deus pela misericórdia, todas as vezes que ela se tenha manifestado e realizado, tanto na vida do povo como na das pessoas individualmente.
 Deste modo, a misericórdia é contraposta , em certo sentido, à justiça divina; e revela-se, em muitos casos, não só mais poderosa, mas também mais profunda que ela. Já no Antigo Testamento se ensina que, embora a justiça no homem,seja autêntica virtude e em Deus signifique perfeição transcendente contudo o amor é «maior» do que a justiça. E é maior no sentido de que, relativamente a ela, é primário e fundamental. O amor condiciona, por assim dizer, a justiça; e, em última análise, a justiça serve a caridade. O primado e a superioridade do amor em relação à justiça — ponto característico de toda a Revelação — manifestam-se precisamente através da misericórdia. Isto pareceu tão claro aos Salmistas e aos Profetas que o próprio termo justiça acabou por significar a salvação realizada pelo Senhor por meio da sua misericórdia. A misericórdia difere da justiça, mas não se lhe opõe, se admitirmos na história do homem — como faz o Antigo Testamento precisamente — a presença de Deus, o qual já como Criador se ligou com particular amor às suas criaturas.
 O amor, por natureza, exclui o ódio e o desejo do mal em relação àquele a quem alguma vez se deu a si mesmo como dom: Nihil odisti eorum quae fecisti, «não aborreceis nada do que fizestes». Tais palavras indicam o fundamento profundo da conexão entre a justiça e a misericórdia em Deus, nas suas relações com o homem e com o mundo. Dizem-nos também que devemos procurar as raízes vivificantes e as razões íntimas desse nexo, remontando ao «princípio», no próprio mistério da criação. No contexto da Antiga Aliança, essas palavras preanunciam a plena revelação de Deus, que «é amor»."

I - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

Por ocasião da celebração do Dia da Misericórdia de Deus e da beatificação do meu "santo de devoção" João Paulo II, gostaria de colocar dividido em vários posts uma reflexão sobre a Misericórdia que ele mesmo nos presenteou em sua encíclica Dives in Miericordia. É claro que é só uma pequena parte e que você encontrará muito mais no texto, outras partes completam o que aqui está escrito. Digamos que seja apenas um aperitivo, uma provocação. Resolvi fazer isso por dois motivos: primeiro que para mim o Papa João Paulo II foi um grande presente da Divina Misericórdia para o mundo e segundo porque sua explicação sobre a Misericórdia nos abre a mente para entendermos melhor essa face maravilhosa do amor de Deus, para assim vivermos de uma maneira mais profunda! Uma reflexão fantástica como todas as que ele fazia. Um homem iluminado por Deus realmente.
Embora seja um pouco grande vale a pena ler e deixar-se tocar por esse texto. Se quiser vê-lo na íntegra, inclusive com as notas (que tirei para encurtar) o link é http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30111980_dives-in-misericordia_po.html 

"III. A MISERICÓRDIA NO ANTIGO TESTAMENTO

O conceito de «misericórdia» no Antigo Testamento

4. O conceito de «misericórdia» no Antigo Testamento tem longa e rica história. Devemos remontar a essa história, para fazer resplandecer mais plenamente a misericórdia que Cristo revelou. Revelando-a, quer pelas suas obras quer pelo seu ensino, Cristo dirigia-se a homens que não só conheciam o conceito de misericórdia, mas também, como povo de Deus da Antiga Aliança, tinham colhido da própria história plurissecular uma peculiar experiência da misericórdia de Deus. Esta íntima experiência foi tanto social e comunitária, como particular e individual.
 Israel foi o povo da aliança com Deus, aliança que muitas vezes violou. Quando tomava consciência da própria infidelidade apelava para a misericórdia . E ao longo da história de Israel não faltaram Profetas e outros homens que despertavam tal consciência. A este propósito, os Livros do Antigo Testamento apresentam-nos numerosos testemunhos. Entre os factos e os textos mais salientes, podemos recordar: o início da história dos Juízes, a oração de Salomão ao ser inaugurado o Templo, uma parte das intervenções proféticas de Miqueias, as consoladoras garantias oferecidas por Isaías, a súplica dos hebreus exilados e a renovação da Aliança depois do regresso do exílio.
 É significativo o facto de os Profetas na sua pregação apresentarem a misericórdia, a qual muitas vezes se referem por causa dos pecados do povo, em ligação com a incisiva imagem do amor da parte de Deus. O Senhor ama Israel com amor de singular eleição, semelhante ao amor de um esposo; e por isso perdoa as suas culpas e até as infidelidades e traições. Ao encontrar-se perante a penitência, a conversão autêntica do povo, retabelece-o novamente na graça. Na pregação dos Profetas, a misericórdia significa a especial força do amor, que prevalece sobre o pecado e sobre a infidelidade do povo eleito.

Neste amplo contexto «social», a misericórdia aparece como o elemento correlativo da experiência interior de cada uma das pessoas que se encontram em estado de culpa, ou que suportam sofrimentos e desgraças de toda a espécie. Tanto o mal físico como o mal moral, ou pecado, fazem com que os filhos e as filhas de Israel se voltem para o Senhor, apelando para a sua misericórdia. Deste modo a Ele se dirige David, consciente da gravidade da sua culpa; igualmente a Ele se dirige Job, depois das suas rebeliões, ao encontrar-se na sua tremenda desventura; assim se dirige ao Senhor também Ester, consciente da ameaça mortal, iminente, contra o seu povo. E, além destes, deparamos ainda com outros exemplos nos Livros do Antigo Testamento.

Na origem desta multiforme convicção comunitária e pessoal, como é comprovado por todo o Antigo Testamento no decurso dos séculos, há que colocar a experiência fundamental do povo eleito, vivido nos dias do êxodo: o Senhor observou a aflição do seu povo, reduzido à escravidão, ouviu os seus clamores, deu-se conta dos seus sofrimentos e decidiu libertá-lo. Neste acto de salvação realizado pelo Senhor, o Profeta quis ver o seu amor e a sua compaixão. A segurança de todo o povo e de cada um dos seus membros radica na misericórdia divina que pode ser invocada em todas as circunstâncias dramáticas.

A isto vem juntar-se o facto de que a miséria do homem é também o seu pecado. O povo da Antiga Aliança conheceu esta miséria desde os tempos do êxodo, quando ergueu o bezerro de ouro. Mas o próprio Senhor triunfou sobre este gesto de ruptura da Aliança, quando se definiu solenemente a Moisés como «Deus compassivo e misericordioso, lento para a ira e cheio de bondade e de fidelidade». É nesta revelação central que o povo eleito e cada um dos seus componentes irão encontrar, depois de terem prevaricado, a força e a razão para de novo se voltarem para o Senhor, para Lhe recordarem exactamente aquilo que Ele tinha revelado acerca de si próprio, e para Lhe implorarem perdão."