sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ceder ou recomeçar?



Quero partilhar mais um ótimo artigo que encontrei num site focolarino. 

"Tudo ao nosso redor parece fomentar a convicção de que "casou e não deu certo? Separa!". Aliás, muita gente já casa tendo diante de si essa perspectiva. Não é um simples modo de dizer. O fenômeno é muito complexo, mas pode ter como causa principal uma cultura que apresenta o bem-estar individual como única referência para as escolhas das pessoas; uma cultura que torna as pessoas incapazes de enfrentar os sacrifícios e de conviver com os sofrimentos que a vida apresenta. O nível de tolerância diante das dificuldades que uma vida a dois provoca é cada vez menor.
Assim como é cada vez menor o número de casais que estão preparados para encarar o casamento como uma escolha para toda a vida e que envolve a vida de outras pessoas, começando pelo outro cônjuge e pelos filhos.
Além do mais, na sociedade do bem-estar em que vivemos, cada um tem a "obrigação" de ser feliz, de apresentar-se bem, física e mentalmente e de fugir de situações que podem demandar sacrifícios, dedicação, abnegação. Nesse contexto, a conhecida fórmula do matrimônio da Igreja Católica: "Prometo ser-te fiel na alegria e na dor, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te durante toda a minha vida" não passa, muitas vezes, de uma promessa, relegada à recordação de um momento emocionante, de caráter social.
Segundo o psicólogo Paulo Roberto Rech, do Rio de Janeiro, especialista em psicologia familiar, um dos principais fatores que conduzem à separação é a "incomunicabilidade" na vida dos casais, apesar das facilidades que a tecnologia oferece para a comunicação interpessoal. O que leva a isso? Na opinião do especialista, é "o fato de vivermos mergulhados em um turbilhão de informações que leva o indivíduo a saber das mazelas da Índia e da China, mas que o impede de saber o que o seu filho ou a sua esposa pensa".
Para Rech, o estilo de vida de hoje pode conduzir a um individualismo exacerbado. "Creio que hoje temos um excessivo 'pensar em si mesmo', na própria felicidade, no próprio sucesso, na realização pessoal. Enquanto o casal só cresce e se realiza na relação, na comunhão de vida", afirma o psicólogo. E conclui: "Na medida em que a ênfase hoje está no 'si-mesmo', na auto-realização, no próprio prazer e no prazer imediato, estamos fora do caminho e o resultado é o isolamento e o não conhecimento do outro".

CONHECIMENTO RECÍPROCO
O não conhecimento do outro é, também para a advogada Afife Lemes Kaial Cury, especialista em Direito Canônico, um dos principais fatores que leva à separação. Segundo ela - que trabalha há 27 anos no Tribunal Eclesiástico Regional e de Apelação de São Paulo e ao qual recorrem casais que desejam comprovar se o próprio casamento foi válido ou não para a Igreja - existe uma grande imaturidade no relacionamento entre o marido e a mulher que os impede de conhecerem-se mutuamente. "Eles não se conhecem" - declara - "porque a permissividade dos dias de hoje sufoca o diálogo. O namoro deveria ser o período oportuno para o conhecimento recíproco, para a troca de ideias em relação a um futuro juntos. Mas o relacionamento do casal se limita ao plano sexual".
Na maioria dos casos, segundo Afife, só depois do casamento os cônjuges descobrem as expectativas que cada um tinha em relação à vida a dois e à própria vida de família. "Depois de casados" - explicou a advogada - "a mulher ou o marido fica sabendo, por exemplo, que o cônjuge não quer saber de filhos, enquanto o seu maior sonho ao casar era tê-los. Isso é causa de muito sofrimento e até de depressão".
Para a especialista, a falta de conhecimento recíproco pode levar a uma vida dupla de um dos cônjuges. "São diversos os casos em que um dos dois leva uma vida dupla já antes do casamento sem o conhecimento do outro. Uma ambiguidade que geralmente¬ perdura depois do casamento e que se torna uma chaga insuportável para o relacionamento", explicou Afife.
Além do mais, segundo Afife, "muitas vezes, as pessoas casam apaixonadas e esquecem que o amor não é só a paixão, a atração física própria da juventude que faz com que um idealize o outro". Para a advogada, a paixão passa e o casal deveria estar treinado a viver o amor, "que contém a paixão, mas a transcende". "A paixão passa com o tempo, mas o amor permanece porque é um sentimento mais profundo que leva a desejar o bem do outro, antepondo-o aos próprios interesses", explicou.
Esse amor, segundo ela, garante a perseverança na vida matrimonial, porque alimenta um espírito de união que leva a relevar pequenos e grandes defeitos, superando dificuldades e atritos em nome de uma doação recíproca. "Essa perseverança desabrocha num amor novo, muito mais sólido, duradouro... uma experiência que passa a ser vivida numa dimensão superior", explica ela.

BUSCA DE AUTONOMIA
Outro fator que pode levar à separação do casal é, segundo Afife, a necessidade de segurança econômica e social de cada cônjuge individualmente, imposta pelo estilo de vida competitivo da sociedade atual. "Os homens vivem para atingir o máximo no âmbito profissional, sob a pressão do fantasma do desemprego. As mulheres, cada vez mais, buscam a própria realização conquistando espaços e ascendendo profissionalmente, apostando nessas coisas a própria realização em sacrifício de seu papel de esposas, mães e principais responsáveis pelo calor de um lar", explicou Afife.
Segundo ela, as diferenças psicofísicas entre o homem e a mulher e a diversidade de proveniência cultural e familiar também podem ser causa de conflito na vida do casal. Ela explica que todos nós carregamos uma bagagem de sentimentos, de experiências feitas, de visões de mundo ligadas à região onde nascemos, ao ambiente cultural onde crescemos, ao modo como fomos educados e tudo isso poderá condicionar o nosso comportamento. "Nesse caso, só o diálogo pode ajudar a superar as diferenças", ressaltou.
Pela sua experiência em acompanhamento de casais, Afife acredita que a palavra-chave para a solidez de um casamento é "preparação".

PREPARAÇÃO
Padre Germano van der Meer, religioso com uma vasta experiência no acompanhamento de casais, concorda que a preparação é uma importante garantia para a solidez de um relacionamento de casal. Segundo ele, são necessárias uma preparação remota e uma preparação próxima.
"A vida depende da capacidade de dialogar e isso é uma conquista. Nós nascemos autocentrados, o que é totalmente normal. Quando crianças, não dialogamos, mas exigimos atenção. Na adolescência floresce o período da amizade, em que aprendemos a conviver e a dialogar, a nos relacionarmos", explicou padre Germano. Portanto, segundo ele, "toda a vida deveria ser uma escola de diálogo para que, na fase adulta, a pessoa já possa ser madura para a vida a dois".
Quanto à preparação próxima, ele afirma: "No namoro, colocamos em prática essa capacidade de diálogo. Por isso, esse período pressupõe uma relação de abertura, de amizade e de confiança. Por meio do conhecimento recíproco os dois jovens compreendem que existe um plano de Deus para eles e podem, então, assumir o compromisso com o noivado". Para o sacerdote, se o casal consegue viver bem essas etapas de preparação, pode chegar ao momento de receber o sacramento do matrimônio, que os abre a um projeto de vida e de santificação juntos numa vida de constante doação recíproca.
E quando não houve a preparação adequada?Para Afife, "uma vez casados, nada impede que o conhecimento recíproco, que garante a solidez do relacionamento, possa acontecer a posteriori". Já para o psicólogo Paulo Rech, "cada cônjuge pode sempre recompor o relacionamento aprendendo a renunciar à própria ideia ou vontade em função da vida do casal". Essa capacidade de renúncia, segundo ele, deve manifestar-se na vida cotidiana, por exemplo, nas decisões sobre as despesas da casa ou sobre os programas de cada um ou do casal. "Aí voltamos à palavra-chave: diálogo", concluiu o psicólogo.
Todos os especialistas entrevistados foram unânimes em afirmar que a proximidade de casais maduros, de um sacerdote ou de um pastor, nos casos de pessoas de outras Igrejas ou de um psicólogo de confiança, pode ser uma ajuda indispensável para a superação de crises que parecem sem saídas. Segundo padre Germano isso se dá porque "quando a crise é partilhada com outras pessoas que podem nos ajudar, ela perde a dramaticidade e se relativiza".

SEXUALIDADE E MATURIDADE
Manoel Ângelo e Maria Marta Araújo, consultores familiares em Porto Alegre (RS), acrescentam um outro fator que pode influir na separação do casal: a insatisfação na vida sexual. Segundo eles, a maioria das pessoas não está habituada a falar das dificuldades nesse campo que ainda é um tabu a ser superado. Para eles, existe um conhecimento insuficiente sobre os conteúdos reais da sexualidade. "Em geral, a vida sexual é vista só como fonte de prazer, ao invés de ser um dom total de um para o outro, como reciprocidade e não como complementaridade", ressaltam.
Segundo os consultores familiares, a sexualidade se exprime em tudo o que o homem ou a mulher faz. Eles explicaram que é impossível pensar no casamento sem levar em conta as diferenças de gênero, seja por razões biológicas, culturais ou ainda por uma mescla dessas razões: homens e mulheres vivenciam de forma diferente a vida de casal.
Para Manoel e Maria Marta, é fundamental que cada cônjuge tenha sempre presente que modificar-se e aceitar aspectos do outro que não possam ser modificados são tarefas fundamentais para a manutenção de um casamento estável e satisfatório. E explicam: "Os casais têm a difícil tarefa de navegar entre o amor que os une e os conflitos de interesse, desejos, expectativas e sonhos de cada um".

NEGOCIAR DIVERGÊNCIAS
O casal de especialistas defende que a noção de felicidade está erroneamente vinculada à ideia de ausência de crise. "Se quisermos experimentar o estado de bem-estar conjugal" - afirmam eles - "é preciso negociar constantemente as divergências, resolvendo conflitos e, sobretudo, vendo as crises como oportunidades de revisar a relação e não como ameaças de ruptura".
Para os especialistas gaúchos, a expressão "crise no casamento" só é sinônimo de ameaça quando não estamos dispostos a vivê-la como uma oportunidade de aceitar as mudanças para as quais ela está sinalizando como sendo necessárias. "Ultrapassar essas dificuldades permite experimentar um amor belo, puro e forte, que não deve morrer jamais", explicam.
Manoel e Maria Marta chamam a atenção também para a importância do perdão na vida do casal. Segundo eles, já está comprovado cientificamente que o perdão é uma das maiores estruturas de reconciliação. Explicam: "Num momento de reconciliação, o perdão leva as pessoas a irem além dos sentimentos e do orgulho ferido: perdoar e ser perdoado pode tornar-se a chave para um recomeço cotidiano. Assim o amor conhece muitos momentos, vários sabores e expressões e a capacidade de amar se renova a cada momento"."
Por Fernanda Pompermayer
Revista Cidade Nova
 

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