segunda-feira, 2 de maio de 2011

I - A misericórdia de Deus e o Papa João Paulo II

Por ocasião da celebração do Dia da Misericórdia de Deus e da beatificação do meu "santo de devoção" João Paulo II, gostaria de colocar dividido em vários posts uma reflexão sobre a Misericórdia que ele mesmo nos presenteou em sua encíclica Dives in Miericordia. É claro que é só uma pequena parte e que você encontrará muito mais no texto, outras partes completam o que aqui está escrito. Digamos que seja apenas um aperitivo, uma provocação. Resolvi fazer isso por dois motivos: primeiro que para mim o Papa João Paulo II foi um grande presente da Divina Misericórdia para o mundo e segundo porque sua explicação sobre a Misericórdia nos abre a mente para entendermos melhor essa face maravilhosa do amor de Deus, para assim vivermos de uma maneira mais profunda! Uma reflexão fantástica como todas as que ele fazia. Um homem iluminado por Deus realmente.
Embora seja um pouco grande vale a pena ler e deixar-se tocar por esse texto. Se quiser vê-lo na íntegra, inclusive com as notas (que tirei para encurtar) o link é http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_30111980_dives-in-misericordia_po.html 

"III. A MISERICÓRDIA NO ANTIGO TESTAMENTO

O conceito de «misericórdia» no Antigo Testamento

4. O conceito de «misericórdia» no Antigo Testamento tem longa e rica história. Devemos remontar a essa história, para fazer resplandecer mais plenamente a misericórdia que Cristo revelou. Revelando-a, quer pelas suas obras quer pelo seu ensino, Cristo dirigia-se a homens que não só conheciam o conceito de misericórdia, mas também, como povo de Deus da Antiga Aliança, tinham colhido da própria história plurissecular uma peculiar experiência da misericórdia de Deus. Esta íntima experiência foi tanto social e comunitária, como particular e individual.
 Israel foi o povo da aliança com Deus, aliança que muitas vezes violou. Quando tomava consciência da própria infidelidade apelava para a misericórdia . E ao longo da história de Israel não faltaram Profetas e outros homens que despertavam tal consciência. A este propósito, os Livros do Antigo Testamento apresentam-nos numerosos testemunhos. Entre os factos e os textos mais salientes, podemos recordar: o início da história dos Juízes, a oração de Salomão ao ser inaugurado o Templo, uma parte das intervenções proféticas de Miqueias, as consoladoras garantias oferecidas por Isaías, a súplica dos hebreus exilados e a renovação da Aliança depois do regresso do exílio.
 É significativo o facto de os Profetas na sua pregação apresentarem a misericórdia, a qual muitas vezes se referem por causa dos pecados do povo, em ligação com a incisiva imagem do amor da parte de Deus. O Senhor ama Israel com amor de singular eleição, semelhante ao amor de um esposo; e por isso perdoa as suas culpas e até as infidelidades e traições. Ao encontrar-se perante a penitência, a conversão autêntica do povo, retabelece-o novamente na graça. Na pregação dos Profetas, a misericórdia significa a especial força do amor, que prevalece sobre o pecado e sobre a infidelidade do povo eleito.

Neste amplo contexto «social», a misericórdia aparece como o elemento correlativo da experiência interior de cada uma das pessoas que se encontram em estado de culpa, ou que suportam sofrimentos e desgraças de toda a espécie. Tanto o mal físico como o mal moral, ou pecado, fazem com que os filhos e as filhas de Israel se voltem para o Senhor, apelando para a sua misericórdia. Deste modo a Ele se dirige David, consciente da gravidade da sua culpa; igualmente a Ele se dirige Job, depois das suas rebeliões, ao encontrar-se na sua tremenda desventura; assim se dirige ao Senhor também Ester, consciente da ameaça mortal, iminente, contra o seu povo. E, além destes, deparamos ainda com outros exemplos nos Livros do Antigo Testamento.

Na origem desta multiforme convicção comunitária e pessoal, como é comprovado por todo o Antigo Testamento no decurso dos séculos, há que colocar a experiência fundamental do povo eleito, vivido nos dias do êxodo: o Senhor observou a aflição do seu povo, reduzido à escravidão, ouviu os seus clamores, deu-se conta dos seus sofrimentos e decidiu libertá-lo. Neste acto de salvação realizado pelo Senhor, o Profeta quis ver o seu amor e a sua compaixão. A segurança de todo o povo e de cada um dos seus membros radica na misericórdia divina que pode ser invocada em todas as circunstâncias dramáticas.

A isto vem juntar-se o facto de que a miséria do homem é também o seu pecado. O povo da Antiga Aliança conheceu esta miséria desde os tempos do êxodo, quando ergueu o bezerro de ouro. Mas o próprio Senhor triunfou sobre este gesto de ruptura da Aliança, quando se definiu solenemente a Moisés como «Deus compassivo e misericordioso, lento para a ira e cheio de bondade e de fidelidade». É nesta revelação central que o povo eleito e cada um dos seus componentes irão encontrar, depois de terem prevaricado, a força e a razão para de novo se voltarem para o Senhor, para Lhe recordarem exactamente aquilo que Ele tinha revelado acerca de si próprio, e para Lhe implorarem perdão."

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